O desenvolvimento mediúnico é algo único, extremamente pessoal, incrivelmente mágico e transformador! É com muitíssimo prazer que compartilho com os amigos o depoimento de nosso médium Douglas e seu relato magnífico de suas pequenas grandiosas descobertas:
Só vim agradecer
A vivência mediúnica produz efeitos diferentes em cada um de nós. Há quem encontre nela uma espécie de confirmação silenciosa, há quem atravesse anos tentando compreender exatamente o que está fazendo ali e há, ainda, aqueles que simplesmente desaparecem depois de algum tempo, talvez porque a mediunidade, ao contrário do que parte da literatura espírita costuma sugerir, não transforma ninguém em criatura etérea, resignada e imune às inconveniências da vida.
Continuamos pagando boletos, perdendo a paciência no trânsito e enfrentando nossas próprias misérias particulares.
Só passamos a fazer isso vestidos de branco.
Tenho a impressão, contudo, de que alguns acontecimentos são cuidadosamente arquitetados no astral para aparecer justamente quando começamos a esquecer por que fazemos o que fazemos. Como se, de tempos em tempos, alguém do lado de lá considerasse prudente produzir uma pequena evidência, não exatamente para alimentar nossa fé, que, a essa altura, deveria sobreviver sem representar um expediente comprobatório, mas para restaurar a dimensão do compromisso que assumimos.
Afinal, trabalhar na caridade significa, entre outras coisas, estar no terreiro praticamente todos os domingos, às nove da manhã, numa frequência que às vezes pode enfraquecer o que nos levou até lá pela primeira vez.
E ninguém deveria subestimar a importância espiritual de acordar cedo num domingo.
Meu grande amigo Giuliano, que também é dirigente da casa, tornou-se uma das pessoas com quem mais converso sobre aquilo que acontece durante os trabalhos. Como moro no interior, a aproximadamente cem quilômetros do terreiro, meu retorno para casa acabou se transformando numa espécie de extensão informal da sessão.
Encerramos os trabalhos, troco de roupa, entro no carro e, enquanto a vibração da casa ainda parece reorganizar certas gavetas do pensamento, começamos a trocar mensagens por áudio.
Debatemos os atendimentos, o desenvolvimento dos médiuns, comportamentos que se repetem, manifestações diferentes, os ritos, aquilo que pertence à tradição da casa e aquilo que talvez represente apenas um hábito antigo que ninguém jamais teve coragem de perguntar por que existe.
Em certos domingos, nossas conclusões são brilhantes. Em outros, percorremos cem quilômetros para não chegar a lugar algum.
Mas o exercício permanece valioso. Nossa amizade, aliás, é um dos vínculos que me ligam profundamente à casa. Evidentemente existe uma conexão espiritual, mas aprendi que a permanência numa corrente mediúnica também depende de laços humanos suficientemente contundentes para nos sustentar quando a transcendência, por alguma razão, resolve ficar mais silenciosa.
Espiritualidade sem convivência corre o risco de virar abstração. E abstração suporta quase tudo, menos uma rotina.
Foi numa dessas conversas, ainda no início da minha entrada para a corrente, que Giuliano me disse algo que guardei. Falávamos sobre os efeitos que o trabalho mediúnico produz ao longo do tempo. Alguns médiuns experimentam a incorporação, atravessam parte do desenvolvimento e depois abandonam o trabalho. As razões são inúmeras e não nos cabe decidir quem estava certo ou errado.
Ainda assim, alguma coisa fica. A experiência mediúnica deixa rastros. Depois que determinadas portas da percepção se abrem, mesmo que alguém decida não atravessá-las novamente, é difícil sustentar a convicção anterior de que nada havia ali.
Com os consulentes ocorre algo semelhante.
Muita gente procura o terreiro vivendo uma crise específica, recebe atendimento e nunca mais aparece. Não vejo problema nisso. Estamos ali justamente para oferecer auxílio, não para criar um programa de fidelidade espiritual. A última coisa que deveria sobreviver dentro de um terreiro é o orgulho do médium ferido porque alguém resolveu seguir a própria vida.
Mas há uma dimensão dessa relação que às vezes passa despercebida. O consulente procura auxílio. Nós nos colocamos como intermediários. As entidades oferecem orientação, amparo e, frequentemente, palavras cuja profundidade seria difícil atribuir apenas à nossa criatividade naquele estado. Forma-se então uma espécie de circuito. Um precisa do outro, embora por razões distintas. O consulente encontra acolhimento.O médium encontra utilidade. E a entidade encontra instrumento.
Talvez seja justamente essa interdependência que torne tudo tão extraordinariamente simples.
Naquela conversa, Giuliano me disse que, vez ou outra, eu testemunharia algo diferente. Algum consulente retornaria não porque estivesse novamente desesperado, nem porque uma nova tragédia tivesse se apresentado com a pontualidade característica das tragédias, mas apenas para agradecer por ter salvado a sua vida. Confesso que achei lindo.
Mas ainda era uma beleza teórica. Existe uma enorme diferença entre compreender intelectualmente uma ideia e testemunhá-la sentada na sua frente.
Depois de duas semanas
Ficamos duas semanas sem os atendimentos habituais.
Primeiro, por conta da sessão interna que chamamos de amaci. Embora os consulentes possam participar de parte da cerimônia, não ocorre o atendimento tradicional. Na semana seguinte, veio o Dia dos Pais e, com ele, mais uma interrupção.
Quando retomamos os trabalhos, a casa estava cheia.
Foram aproximadamente quarenta atendimentos, ligeiramente acima do volume ao qual estávamos acostumados. Nego Juca, com a tranquilidade de quem possui acesso a estatísticas que nós desconhecemos, já havia avisado que aquilo aumentaria e que precisaríamos permanecer firmes.
Enquanto a sessão começava, reparei numa moça jovem sentada na assistência. Devia ter uns vinte e três anos. Reconheci o rosto, embora alguma coisa estivesse diferente. Eu já a havia atendido algumas vezes. Em pelo menos três ocasiões, meu “cavalo”, como as entidades costumam chamar o médium, serviu de instrumento durante os atendimentos dela.
Minha lembrança mais nítida era a de uma jovem de semblante abatido, olhos frequentemente chorosos, cabelo um pouco desajeitado e uma fisionomia que carregava aquela exaustão difícil de esconder. Existem tristezas que possuem causa aparente. Outras parecem simplesmente ocupar a pessoa. Na época, eu não saberia dizer exatamente o que a afligia, mas era impossível não perceber que alguma coisa pesava.
Desta vez, porém, encontrei outra pessoa.
Não estou dizendo que seus traços físicos haviam mudado, evidentemente. Era a mesma jovem. O que havia desaparecido era aquela espécie de opacidade que anteriormente parecia revesti-la. Seu rosto estava leve. Havia serenidade no olhar. Talvez a paz seja uma palavra muito utilizada em narrativas espirituais, a ponto de ter perdido parte da sua substância. Ainda assim, era precisamente aquilo.
Paz.
Durante os trabalhos, tive novamente a oportunidade de atendê-la. Na incorporação, existe uma circunstância difícil de explicar a quem nunca passou por ela. Autorizamos, dentro de determinados limites e sob toda uma estrutura ritualística, que o astral utilize nosso corpo como veículo de manifestação. Quando o processo ocorre de maneira satisfatória, aparecem trejeitos que não são habituais, alterações na voz, sotaques, posturas físicas e uma forma de percepção intuitiva que parece antecipar coisas que, racionalmente, não teríamos como saber. Ao contrário da caricatura popular, porém, não estamos necessariamente desacordados.
Existe consciência. Em diferentes graus, evidentemente, mas existe. Você observa. Escuta. Sente.
E, ao mesmo tempo, participa de algo cuja autoria não consegue reivindicar por inteiro. Foi nesse estado que ela se sentou à nossa frente. A entidade perguntou o que poderia fazer por ela. E então aconteceu.
Ela sorriu.
Não foi um sorriso protocolar, desses que oferecemos ao caixa do supermercado ou ao vizinho com quem não queremos iniciar uma conversa longa.
Foi um sorriso inteiro. Lindo.
Ainda hoje consigo recuperá-lo com uma nitidez quase fotográfica. Não quero pedir nada. Só vim tomar um passe e agradecer por tudo. Ela contou que estava bem. Disse que a ansiedade já não lhe pertencia como antes.
Estava feliz. Por alguns segundos, toda a liturgia complexa que envolve uma sessão pareceu se condensar numa frase absolutamente elementar:
“Só vim agradecer.”
Nós que o médium não vê
Trabalhamos, em determinadas ocasiões, com energias muito densas.
Existem atendimentos que exigem do médium concentração, disciplina e uma compreensão minimamente madura sobre aquilo que está realizando. Há nós que precisam ser desfeitos, padrões que precisam ser interrompidos e situações cuja dimensão nós provavelmente conhecemos apenas parcialmente.
Não é brincadeira.
Talvez por isso alguns médiuns abandonem o trabalho depois de compreender sua seriedade. Antes da experiência, é relativamente fácil romantizar a mediunidade. Ela combina muito bem com frases bonitas, imagens de luz, mensagens edificantes e toda sorte de estética espiritual disponível nas redes sociais. O problema começa quando se percebe que servir implica responsabilidade. E responsabilidade quase nunca possui o mesmo apelo estético. Não basta vestir branco, incorporar, conhecer pontos, falanges, fundamentos ou desenvolver um vocabulário suficientemente hermético para impressionar os incautos.
Em algum momento, o médium precisa compreender por que está ali. E talvez aquela moça tenha me oferecido uma das respostas mais claras que já recebi. Lembrei imediatamente da conversa que tive com Giuliano meses antes. Ele havia me dito que isso aconteceria. Que, em algum momento, alguém voltaria apenas para agradecer. Na ocasião, compreendi a ideia. No domingo do dia 30 de agosto de 2026, compreendi o significado. Há um impacto duplo nesse tipo de experiência.
O primeiro acontece com o consulente, que retorna para reconhecer o auxílio recebido e atribui às entidades uma parcela importante daquela transformação. O segundo talvez seja ainda mais necessário.
Acontece conosco. Porque o médium também precisa ser lembrado.
Nós igualmente atravessamos dificuldades, crises financeiras, conflitos familiares, inseguranças, frustrações e toda a coleção de perturbações que acompanha qualquer pessoa que em grau mínimo esteja inserida na experiência humana. A mediunidade não concede imunidade diplomática contra o sofrimento.
Talvez faça justamente o contrário. Ela aumenta nossa responsabilidade diante dele.
E é curioso perceber que, muitas vezes, chegamos ao terreiro carregando nossos próprios problemas e somos obrigados, durante algumas horas, a suspendê-los para cuidar dos problemas de alguém que sequer conhecemos.
Existe algo profundamente pedagógico nisso.
O nosso drama, que às oito da manhã parecia possuir dimensões apocalípticas, às onze já perdeu parte do protagonismo. Não porque deixou de existir. Mas porque fomos apresentados à dor do outro.
O exército
Gosto da expressão “exército de Cristo”.
Não pela ideia bélica, obviamente. Mas pela disciplina que a metáfora carrega. Um exército pressupõe compromisso. Ninguém é convocado apenas nos dias em que acorda inspirado.
Há trabalho quando estamos felizes e quando não estamos. Há domingo depois de uma semana maravilhosa e domingo depois de uma semana miserável. Existe cansaço, dúvida, vontade de ficar em casa.
E existe o jaleco branco esperando.
Com o tempo, começamos a compreender que perseverar talvez seja menos uma demonstração de fé e mais uma decisão moral.
Você simplesmente vai e trabalha.
Neste domingo dia 30 de agosto, entretanto, fui recompensado com algo que nenhum estudo sobre mediunidade conseguiria reproduzir. Diante de mim estava uma jovem que, meses antes, carregava no rosto uma angústia evidente e que agora retornava ao mesmo lugar sem pedidos, sem lágrimas e sem urgências.
Ela queria apenas agradecer.
Talvez eu jamais saiba exatamente quais elementos contribuíram para aquela mudança. Pode ter sido o atendimento espiritual. Talvez outras circunstâncias da vida tenham colaborado. Provavelmente foi uma confluência de coisas, como quase tudo que verdadeiramente nos transforma. Não preciso reivindicar exclusividade causal para reconhecer a beleza do acontecimento. A espiritualidade não precisa sequestrar o mérito de ninguém para continuar sendo extraordinária.
O que sei é que, naquele instante, uma frase pronunciada por uma jovem de vinte e poucos anos fez mais pela minha compreensão da caridade do que muitas páginas que já li sobre o assunto.
“Só vim agradecer, muito obrigada.”
Há mensagens espirituais que chegam acompanhadas de fenômenos. Outras por intuição. Algumas aparecem durante a incorporação. E existem aquelas que simplesmente se sentam na nossa frente. Talvez seja por isso que determinados domingos pareçam cuidadosamente preparados para acontecer quando precisamos deles.
A gente entra no terreiro imaginando que está indo ajudar alguém. E sai de lá desconfiado de que, mais uma vez, foi exatamente o contrário.
Douglas A.