Histórico vivo da Terreira

O silêncio também é mediunidade

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O silêncio também é mediunidade

Poucos são os textos e livros que abordam a mediunidade vivida dentro do terreiro de Umbanda. É com imenso prazer que compartilho mais um artigo produzido por um de nossos médiuns (iniciante), e que tem meu total apoio e incentivo para que continue a transformar em palavras aquilo que apenas sentimos, vivemos e muitas vezes não temos com quem compartilhar e dividir. A autodescoberta mediúnica é realmente fantástica e bela quando encarada com razão, boa fé e sinceridade. Espero que gostem de nosso novo artigo:

O silêncio também é mediunidade

Durante muito tempo, imaginei que pessoas dotadas de mediunidade mantivessem uma relação quase permanente com aquilo que costumamos chamar de mundo espiritual. Não necessariamente uma convivência com aparições pelos corredores ou vozes atravessando a madrugada, mas alguma espécie de percepção contínua, suficientemente evidente para que o indivíduo não precisasse passar boa parte da vida tentando descobrir se aquilo que experimenta é mediunidade, imaginação ou apenas uma dessas coincidências que nossa necessidade de explicação insiste em transformar em fenômeno.

Parecia uma expectativa razoável.

Afinal, se alguém possui determinada sensibilidade, seria natural imaginar que essa condição se manifestasse com alguma regularidade. Um músico não deixa de reconhecer uma nota porque saiu do conservatório. Um pintor continua percebendo nuances de cor quando não está diante de uma tela. Por que, então, alguém que trabalha mediunicamente dependeria de circunstâncias tão particulares para perceber aquilo que, em tese, faz parte da própria natureza?

O problema é que a mediunidade não parece muito interessada em satisfazer nossas analogias.

Conversando com outros médiuns ao longo dos últimos anos, descobri que a realidade relatada por muitos deles está bastante distante daquilo que eu imaginava. Existem pessoas mais sensíveis, outras menos. Algumas descrevem percepções frequentes, enquanto outras atravessam semanas sem identificar absolutamente nada que considerem uma manifestação espiritual.

E continuam trabalhando normalmente.

Essa constatação me colocou diante de uma contradição curiosa. Durante muito tempo, a relativa escassez dessas experiências me levou a acreditar que talvez eu não possuísse aptidão para o exercício mediúnico. Havia episódios isolados, algumas percepções difíceis de classificar e acontecimentos que, embora intrigantes, não me pareciam suficientes para justificar qualquer certeza.

Não faltava curiosidade.

Faltava espetáculo.

Eis o equívoco.

O problema de querer encontrar aquilo que não foi perdido

Neste domingo, chegamos ao terreiro para nossa habitual conversa das oito da manhã. Antes do início dos trabalhos, participamos de uma aula aberta também aos consulentes, na qual discutimos fundamentos da Umbanda, experiências pessoais, literatura e questões que raramente encontram espaço para discussão fora dali.

Particularmente, gosto dessas conversas porque elas preservam uma característica que considero indispensável a qualquer ambiente minimamente saudável: a possibilidade de alguém formular uma pergunta sem que outra pessoa se sinta imediatamente convocada a defender a honra do universo.

Naquela manhã, Giuliano, dirigente da casa, compartilhou uma inquietação semelhante à minha.

Mesmo com sua experiência mediúnica, também sentia falta de manifestações mais frequentes no cotidiano. Não exatamente por duvidar daquilo que vivencia durante os trabalhos, mas porque existe uma diferença entre participar de uma experiência espiritual dentro de um ambiente ritualístico e reconhecer essa mesma dimensão enquanto se atravessa a banalidade dos compromissos diários.

Ele contou que esteve quatro vezes numa mesa kardecista.

Nas quatro, não sentiu absolutamente nada.

O detalhe é que sua expectativa era ambiciosa: pretendia iniciar uma experiência de psicografia.

Não aconteceu.

O relato me chamou atenção justamente porque contrariava uma expectativa bastante difundida: a de que alguém habituado à incorporação deveria transportar essa sensibilidade para qualquer ambiente em que uma manifestação espiritual fosse possível.

Mas a mediunidade, ao menos na experiência que compartilhamos, não parece funcionar como uma habilidade que se aciona por conveniência.

É possível levantar inúmeras hipóteses. Diferenças ritualísticas, familiaridade com determinados estímulos, expectativas individuais ou simplesmente a ausência de alguma experiência perceptível naquelas ocasiões.

Nenhuma dessas explicações, isoladamente, resolve a questão.

E não vejo por que deveríamos fingir que resolve.

Foi então que nossa conversa chegou a uma possibilidade interessante: talvez as manifestações espirituais mais evidentes não aconteçam na frequência que desejamos porque não possuem a finalidade que imaginamos.

Dentro da compreensão religiosa que compartilhamos, a espiritualidade não estaria permanentemente disponível para oferecer demonstrações de sua existência. A manifestação ocorreria conforme a necessidade do trabalho, da orientação ou de alguma circunstância específica.

É uma interpretação, evidentemente.

Mas Giuliano havia vivido uma experiência que, para ele, oferecia algum sentido a essa ideia.

Seu Darci, fundador do terreiro da Mãe Maria, já desencarnado, teria se manifestado na entrada do terreiro com uma mensagem particularmente significativa: todos nós estávamos ali porque Giuliano nunca havia desistido.

Não conheço todas as dimensões daquele acontecimento, tampouco pretendo transformá-lo numa demonstração objetiva da presença espiritual. Mas compreendo por que uma mensagem assim poderia adquirir importância para alguém que dedica parte da vida à continuidade de uma casa religiosa.

Não se tratava, na interpretação de quem a recebeu, de uma manifestação destinada a impressionar uma plateia.

Tratava-se de um reconhecimento.

Talvez esse tipo de experiência baste.

Ou talvez nossa necessidade de receber novas confirmações seja muito maior do que gostaríamos de admitir.

A necessidade humana de receber um recibo do sobrenatural

Existe uma contradição bastante curiosa na maneira como lidamos com a fé.

Dizemos acreditar numa realidade espiritual que ultrapassa nossos sentidos ordinários, mas frequentemente desejamos que ela se comporte como um serviço de atendimento ao consumidor, oferecendo confirmações sempre que nossa segurança intelectual começa a oscilar.

Não basta acreditar.

Queremos verificar.

De preferência, com alguma regularidade, porque a memória humana possui o inconveniente de transformar acontecimentos extraordinários em lembranças cada vez mais distantes.

É compreensível.

Afinal, somos criaturas habituadas a procurar relações entre causa e efeito. Quando algo acontece, tentamos identificar sua origem. Quando não acontece, procuramos entender a ausência. E, diante de experiências que não conseguimos reproduzir voluntariamente, nossa inteligência costuma oscilar entre duas tentações igualmente problemáticas: negar precipitadamente o fenômeno ou inventar uma explicação definitiva para ele.

No universo religioso, a segunda alternativa costuma receber uma vantagem considerável.

Tem sempre alguém disposto a explicar exatamente por que você não sentiu nada.

Pode ser falta de sintonia, bloqueio energético, insuficiência de preparo, influência espiritual ou qualquer outra expressão bem elaborada para produzir a sensação de que o mistério acabou de ser resolvido.

O curioso é que, às vezes, a resposta mais intelectualmente honesta continua sendo bastante inconveniente.

Não sabemos.

Isso não significa abandonar a interpretação espiritual da experiência. Significa apenas reconhecer que uma hipótese religiosa não se transforma automaticamente em conhecimento demonstrado porque foi pronunciada com convicção dentro de um terreiro.

A crença tem seu espaço.

A investigação também.

O problema começa quando confundimos as duas e passamos a exigir que uma desempenhe as obrigações da outra.

Talvez a manifestação não tenha ocorrido porque não havia nenhuma necessidade espiritual para isso.

Talvez existam fatores que desconhecemos.

E talvez, em determinadas situações, simplesmente não tenha acontecido nada.

Minha fé não precisa obrigatoriamente sair vencedora de todas essas possibilidades.

O terreiro não é uma extensão do nosso quarto

Há, entretanto, uma diferença importante entre aquilo que percebo no cotidiano e o que experimento durante os trabalhos mediúnicos.

No terreiro, não estamos isolados.

Existe uma corrente organizada, uma disciplina ritualística, uma tradição compartilhada e uma disposição coletiva voltada para determinada finalidade. Dentro da compreensão umbandista, esses elementos participam da sustentação espiritual dos trabalhos.

Fora dali, a realidade é outra.

Estamos submetidos às preocupações profissionais, aos conflitos familiares, às distrações habituais e à quantidade impressionante de pensamentos desnecessários que conseguimos produzir entre o café da manhã e a hora de dormir.

Seria estranho imaginar que as duas circunstâncias fossem equivalentes.

Isso não quer dizer que a presença de um ritual comprove, por si mesma, a origem espiritual daquilo que acontece. O ambiente também modifica nossa atenção, nossa expectativa e a maneira como interpretamos experiências subjetivas.

Reconhecer essa possibilidade não me parece uma ameaça à mediunidade.

Parece uma obrigação de quem pretende compreendê-la com alguma seriedade.

Dentro da minha vivência, entretanto, o terreiro oferece condições particulares para o exercício mediúnico. E talvez seja justamente por isso que a comparação com as percepções cotidianas tenha sido tão injusta durante boa parte da minha trajetória.

Eu queria encontrar fora da corrente a mesma experiência que vivenciava dentro dela.

Como se a espiritualidade tivesse a obrigação de manter expediente integral apenas porque eu estava interessado em conferir se continuava empregado.

Mas aquela conversa não terminou na questão das manifestações.

Em determinado momento, passamos a discutir algo que, à primeira vista, parecia pertencer a outro assunto: o papel da consciência e da razão durante a incorporação.

Pensando melhor, talvez estivéssemos examinando duas faces da mesma dificuldade.

De um lado, a necessidade de encontrar evidências para confirmar aquilo que acreditamos experimentar.

De outro, a responsabilidade de não transformar tudo aquilo que experimentamos em evidência.

Existe uma diferença importante entre as duas coisas.

E ela pode ser decisiva quando há outra pessoa envolvida.

A entidade não precisa de um médium que tenha sempre razão

Durante aquela conversa, discutimos a necessidade de o médium consciente participar intelectualmente da comunicação espiritual.

Existe uma imagem bastante difundida de que o médium incorporado funciona como um instrumento passivo, temporariamente afastado da própria consciência para que uma entidade espiritual assuma integralmente suas funções.

Na minha experiência, não é assim.

Durante a incorporação, continuo percebendo boa parte daquilo que acontece. Escuto, observo, raciocino e participo da construção verbal das orientações oferecidas ao consulente.

Isso exige uma responsabilidade enorme.

Porque, se existe participação da minha consciência, também existe a possibilidade de interferência das minhas opiniões, dos meus preconceitos, das minhas limitações intelectuais e até daquela vontade discretamente humana de oferecer uma resposta brilhante.

E uma resposta brilhante pode ser completamente inadequada.

Quem procura auxílio espiritual dificilmente atravessa a porta de um terreiro interessado em avaliar a sofisticação intelectual do médium. Normalmente, carrega problemas mais urgentes do que descobrir quantos livros lemos.

A pessoa precisa perceber que sua dor foi compreendida.

Não que encontramos uma oportunidade de demonstrar nosso repertório espiritual.

Dentro da experiência de incorporação consciente, uma das maiores dificuldades é justamente compreender como traduzir aquilo que interpretamos como orientação da entidade sem permitir que nossas intenções particulares dominem a mensagem.

O que faço com determinada percepção?

Reproduzo imediatamente as primeiras palavras que me vêm à cabeça?

Organizo a mensagem?

Procuro compreender se aquilo que estou prestes a dizer responde de fato à necessidade apresentada?

E, principalmente, como diferencio uma orientação intuída de uma opinião pessoal que encontrou uma oportunidade conveniente para se manifestar?

Essa última pergunta me parece especialmente importante.

Porque existe uma maneira bastante confortável de conquistar autoridade numa conversa religiosa: atribuir a origem das próprias palavras a alguém que o interlocutor não pode questionar diretamente.

Basta dizer que foi a entidade.

A partir daí, uma opinião humana corre o risco de adquirir o prestígio de uma determinação espiritual.

É um expediente extraordinariamente eficiente.

E perigoso.

Não estou sugerindo que toda manifestação mediúnica seja uma elaboração consciente do próprio médium. Isso contrariaria a interpretação que faço das minhas experiências.

Estou dizendo algo mais simples: a convicção de estar transmitindo uma orientação espiritual não elimina a possibilidade de erro humano.

Aliás, talvez seja justamente a consciência dessa possibilidade que torne o trabalho mais responsável.

Entre a mensagem e a vaidade existe um médium

Reconhecer que participo conscientemente da comunicação espiritual significa aceitar uma consequência inconveniente: a mensagem que transmito atravessa alguém que possui opiniões, limitações e uma capacidade bastante humana de confundir convicção com verdade.

E não há incorporação que conceda imunidade automática contra isso.

Meu vocabulário é limitado.

Meu conhecimento é limitado.

Minha capacidade de interpretar corretamente o sofrimento de outra pessoa também é limitada.

E, por mais desagradável que seja reconhecer, minhas intenções nem sempre estarão completamente livres da influência do ego.

O problema é que responsabilidade exige algo que nem sempre combina bem com a vaidade religiosa: aceitar que podemos estar equivocados mesmo quando acreditamos estar fazendo a coisa certa.

Durante um atendimento, não basta que determinada orientação me pareça espiritualmente elevada. Preciso considerar sua pertinência, seu impacto e o modo como será recebida por alguém que talvez esteja vivendo uma das experiências mais difíceis da própria vida.

Uma palavra mal colocada pode transformar uma orientação em sentença.

Uma interpretação precipitada pode reforçar uma culpa que a pessoa já carrega.

Uma afirmação categórica sobre acontecimentos futuros pode criar expectativas que ninguém possui condições de garantir.

E tudo isso pode acontecer enquanto o médium acredita sinceramente estar cumprindo uma missão de caridade.

A boa intenção, infelizmente, nunca foi uma apólice contra consequências ruins.

É aqui que entra o crivo da razão.

Allan Kardec já defendia uma fé capaz de enfrentar o exame racional sem exigir a suspensão do pensamento crítico. Em O Evangelho segundo o Espiritismo, a fé raciocinada aparece como aquela capaz de encarar a razão em qualquer época da humanidade.

A proposta era bastante sensata.

O problema, como costuma acontecer com os princípios religiosos, começa quando precisamos aplicá-los às pessoas que admiramos.

Não é incomum encontrar ambientes espirituais nos quais o discurso sobre estudo, discernimento e liberdade de pensamento conviva com uma reverência quase incondicional a determinadas autoridades.

O dirigente pode ser questionado.

Desde que a pergunta não comprometa sua autoridade.

A orientação pode ser examinada.

Desde que o exame confirme aquilo que já foi determinado.

E a razão é sempre bem-vinda, naturalmente, contanto que não apareça com alguma conclusão inconveniente.

É um modelo de investigação bastante confortável para quem já conhece o resultado.

Mas existe uma contradição quando uma tradição que reivindica a fé raciocinada começa a tratar seus representantes mais admirados como autoridades pouco sujeitas ao mesmo exame crítico que recomenda aos demais.

Afinal, se a razão deve examinar tudo, seria estranho conceder imunidade justamente àqueles que falam em nome da espiritualidade.

E essa observação vale para dirigentes de terreiros, médiuns experientes e, evidentemente, para mim.

Porque o médium não deixa de ser humano quando incorpora. Tampouco adquire, por proximidade com aquilo que considera sagrado, alguma espécie de licença para transformar suas convicções particulares em verdades universais.

O crivo da razão, portanto, não deveria funcionar como tentativa de submeter o espiritual às nossas preferências, mas como exercício permanente de vigilância sobre aquilo que estamos prestes a comunicar.

Na minha compreensão religiosa, existe uma diferença entre receber uma intuição e conseguir traduzi-la com fidelidade.

Não se trata apenas de encontrar palavras bonitas ou construir uma resposta intelectualmente convincente.

Trata-se de compreender que, entre aquilo que acredito receber e aquilo que efetivamente comunico, existe uma pessoa sujeita a interpretações equivocadas.

Eu.

E talvez essa seja a parte mais difícil de admitir.

Porque, se existe algo mais perigoso do que um médium que não sabe o que está dizendo, é aquele que já não admite essa possibilidade.

O conhecimento não concede promoção espiritual

Ainda durante nossa conversa, surgiu uma questão relacionada ao repertório intelectual do médium.

Acredito que a leitura, a investigação e o contato com diferentes tradições de pensamento podem contribuir para ampliar nossa capacidade de interpretar experiências e organizar mensagens.

Uma pessoa que dispõe de vocabulário mais amplo, conhece diferentes situações humanas e consegue identificar nuances num conflito provavelmente possui mais recursos para transmitir uma orientação sem reduzi-la a uma frase genérica.

Mas existe uma diferençal entre aprimorar os instrumentos intelectuais e desenvolver alguma espécie de superioridade espiritual.

Uma pessoa lê dezenas de livros, domina terminologias religiosas, conhece tradições, identifica falanges, descreve rituais e consegue sustentar uma conversa sofisticada sobre diferentes concepções da mediunidade.

Tudo isso pode ser útil.

Mas não significa, necessariamente, que tenha se tornado uma pessoa melhor.

A humanidade possui bibliotecas inteiras produzidas por pessoas que demonstraram extraordinária habilidade para compreender virtudes que jamais tiveram grande interesse em exercer.

O universo religioso não está imune a esse talento.

Por isso, desconfio de qualquer associação automática entre erudição e elevação espiritual.

O médium que leu cinquenta livros não se tornou, por esse motivo, cinquenta vezes mais preparado para acolher o sofrimento humano.

Talvez tenha adquirido melhores condições para compreender determinadas experiências.

Talvez tenha desenvolvido algum discernimento.

Ou talvez tenha apenas ampliado seu repertório de palavras difíceis para justificar convicções antigas.

Depende do que fez com aquilo que aprendeu.

E, sobretudo, do que consegue fazer quando alguém se senta à sua frente precisando de ajuda.

Quando a interferência pode ser simplesmente nossa

Outra questão que atravessou minha reflexão naquele domingo foi a necessidade de cuidado com os próprios pensamentos.

Dentro da cosmologia espiritual que compartilho, admitimos que o pensamento humano possa sofrer influências de diferentes naturezas. Falamos em sintonia, afinidade espiritual, interferências e condições mentais capazes de favorecer ou dificultar determinados trabalhos.

Compreendo essas ideias dentro da minha experiência religiosa.

Mas há um risco evidente em transformá-las em explicações universais para todo pensamento inconveniente que aparece durante uma incorporação.

Às vezes, a interferência pode ser simplesmente nossa.

Nossa memória.

Nosso julgamento.

Nossa preferência pessoal.

Nossa dificuldade de escutar alguém sem antecipar uma conclusão.

E talvez seja mais produtivo começar investigando essas possibilidades do que atribuir cada pensamento inadequado a alguma influência invisível.

Existe uma vantagem moral bastante conveniente em acreditar que nossas falhas sempre chegam de fora.

Se fui arrogante, houve interferência.

Se interpretei mal, faltou sintonia.

Se ofereci uma orientação desastrosa, alguma energia perturbou a comunicação.

Enquanto isso, o sujeito responsável por pronunciar as palavras continua espiritualmente inocente.

Não me parece um modelo maduro de responsabilidade.

Acredito que o exercício mediúnico exija justamente o contrário: disposição para reconhecer a própria participação e assumir as consequências daquilo que comunicamos.

Mesmo quando nossa intenção foi ajudar.

Principalmente quando nossa intenção foi ajudar.

Porque o consulente não precisa de um médium convencido de sua infalibilidade.

Precisa de alguém minimamente comprometido com o atendimento para compreender que sua dor não é um laboratório de demonstrações espirituais.

O que ficou daquele domingo

Quando penso na conversa que tivemos naquela manhã, percebo que começamos discutindo a falta de manifestações espirituais e terminamos diante de uma preocupação bastante diferente.

A responsabilidade sobre aquilo que fazemos quando acreditamos recebê-las.

Talvez não sejam assuntos tão distantes.

A necessidade de encontrar evidências pode nascer do mesmo desconforto que nos leva a procurar respostas definitivas para experiências que ainda não compreendemos inteiramente.

Queremos saber se somos médiuns suficientemente sensíveis.

Queremos reconhecer a origem de cada percepção.

Queremos transmitir a mensagem correta.

E, de preferência, gostaríamos de alguma garantia de que nossas interpretações não estão contaminadas por aquilo que pensamos, desejamos ou tememos.

Mas essa garantia não parece estar disponível.

Pelo menos não para mim.

Durante muito tempo, não perceber manifestações frequentes parecia representar alguma insuficiência pessoal. Como se a mediunidade precisasse demonstrar continuamente sua presença para legitimar o trabalho que eu realizava.

Hoje, essa preocupação me parece menos importante.

Não porque tenha encontrado uma explicação capaz de eliminar minhas dúvidas.

Mas porque comecei a desconfiar da própria necessidade de eliminá-las.

O relato de Giuliano sobre suas tentativas de psicografia me fez perceber que a experiência mediúnica não necessariamente acompanha nossas expectativas. A lembrança da mensagem atribuída a seu Darcy trouxe outra dimensão à conversa: a possibilidade de que um acontecimento isolado adquira mais significado do que inúmeras manifestações desejadas apenas para confirmar uma convicção.

E a discussão sobre a incorporação consciente me deixou uma inquietação ainda mais importante.

Não basta sentir alguma coisa.

É preciso compreender, dentro dos limites possíveis, o que fazer com aquilo que sentimos.

E, quando estamos diante de outra pessoa, esse compromisso se torna ainda mais exigente.

Não interessa apenas se houve uma manifestação.

Interessa o que foi comunicado.

Como foi comunicado.

E quais consequências aquela mensagem poderá produzir na vida de quem a recebeu.

Talvez eu continue passando muitos dias sem perceber nada particularmente extraordinário.

Talvez Giuliano volte a uma mesa kardecista e, mais uma vez, não experimente qualquer manifestação reconhecível.

Talvez a espiritualidade tenha suas razões.

Talvez nós estejamos fazendo perguntas que ainda não sabemos responder.

O que não me parece razoável é transformar essa ausência numa corrida por evidências, como se nosso compromisso com a caridade dependesse de demonstrações periódicas de que existe alguém do outro lado.

Porque, no final das contas, há uma contradição que considero difícil de ignorar.

Passamos tanto tempo querendo ouvir a espiritualidade que corremos o risco de esquecer a responsabilidade de escutar quem está sentado à nossa frente.

E, diferentemente das entidades, essa pessoa não precisa atravessar dimensão alguma para nos mostrar que existe.

Basta prestar atenção.

Douglas A.