Histórico vivo da Terreira

Quando a Bíblia vira carimbo

Quando a Bíblia vira carimbo

Todo curioso que conheço costuma ser mais aberto ao debate do que alguém excessivamente convicto.

Não porque seja mais inteligente. Seria pretensioso demais, além de provavelmente falso. A diferença é mais simples: a curiosidade sobrevive enquanto ainda existem perguntas. A convicção absoluta, não. Quando alguém finalmente conclui que encontrou a verdade inteira, desaparece boa parte da necessidade de investigar o resto.

E aí conversar começa a ficar difícil.

O curioso carrega consigo uma espécie de desconforto permanente. Há sempre alguma coisa mal resolvida internamente, alguma explicação que poderia ser melhor, algum detalhe capaz de desmontar uma certeza cultivada por anos. Pode parecer cansativo, e às vezes é mesmo, mas há uma vantagem nisso: perguntas mantêm o pensamento vivo.

A certeza absoluta costuma preferi-lo embalsamado.

Não confundo, evidentemente, curiosidade com desconfiança. São coisas diferentes. A curiosidade procura ampliar uma compreensão. A desconfiança frequentemente procura apenas uma confirmação para aquilo que já decidiu acreditar.

Uma pergunta quer descobrir.

Uma suspeita quer vencer.

Essa diferença explica boa parte da minha relação com a religião.

Não questiono a existência de Deus cada vez que acordo pela manhã. Essa é uma convicção minha. Também não transformo toda conversa espiritual numa banca de doutorado em teologia comparada. Seria insuportável conviver comigo, e imagino que já exista material suficiente contra mim sem que eu acrescente esse defeito.

Meu problema começa em outro lugar.

Começa quando uma interpretação religiosa deixa de ser uma possibilidade de leitura e passa a se comportar como sentença.

Foi provavelmente esse modelo de pensamento que me afastou da cultura evangélica como lugar de conforto espiritual. Não por falta de oportunidade. Cresci cercado por cristãos e tenho amigos evangélicos que amo profundamente, embora alguns provavelmente considerem minha teologia uma espécie de acidente doméstico.

O afastamento nasceu das perguntas.

Ou, mais precisamente, das respostas.

Durante muito tempo, percebi que alguns questionamentos sinceros recebiam respostas estranhamente prontas. Não necessariamente ruins. Prontas.

Eu perguntava sobre uma questão moral, vinha um versículo.

Perguntava sobre mediunidade, vinha outro.

Perguntava se aquele trecho poderia admitir outra interpretação e, estranhamente, a própria tentativa de reinterpretá-lo já surgia como evidência de que eu ainda não havia compreendido suficientemente a verdade.

É um sistema intelectualmente bastante eficiente.

Se eu concordo, compreendi.

Se discordo, ainda não compreendi.

Difícil perder.

É como conversar com alguém cujo grau particular de teofania eu ainda não fui capaz de alcançar. Antes mesmo que a conversa amadureça, já posso ser discretamente empacotado na categoria das pessoas que “ainda não conheceram Jesus de verdade”.

Jesus, neste caso, aparentemente vem com representante comercial exclusivo.

Meus amigos cristãos sofrem comigo por causa disso.

A intimidade conquistada ao longo dos anos me concedeu uma licença poética perigosa, e volta e meia faço alguma piada ácida sobre o universo evangélico. Depois de algumas delas, inevitavelmente surge a pergunta:

Afinal, o que tu tem contra os evangélicos?

Nada contra os evangélicos.

Tenho alguma coisa contra respostas que chegam antes da pergunta terminar.

O problema não é a Bíblia

Existe uma diferença importante aqui, porque seria de uma hipocrisia intelectual fazer exatamente aquilo que estou criticando.

Meu incômodo não é com alguém recorrer à Bíblia para sustentar sua fé. Seria absurdo exigir que um cristão abandonasse seu texto fundamental justamente numa conversa sobre religião.

O problema é quando o texto deixa de participar da conversa e passa a encerrá-la.

Recentemente, discutindo Umbanda com um amigo, surgiu Deuteronômio:

“Não se achará entre ti, adivinhador, prognosticador, agoureiro, feiticeiro, nem quem consulte os mortos.”

A interpretação que ele carregava era bastante conhecida: a Escritura condena práticas mediúnicas; portanto, aquilo que ocorre num terreiro estaria automaticamente enquadrado na mesma sentença.

Pronto.

Processo encerrado.

O curioso é que justamente ali começaria a parte interessante da conversa.

O que o autor antigo entendia por consultar os mortos?

Quais práticas religiosas estavam sendo combatidas naquele contexto?

Toda experiência de comunicação espiritual pretendida por tradições posteriores pertence necessariamente à mesma linha de raciocínio?

Existe diferença entre adivinhação, culto aos mortos, ancestralidade, orientação espiritual e aquilo que religiões mediúnicas entendem por incorporação?

Essas perguntas não obrigam ninguém a aceitar a Umbanda.

Obrigam apenas a pensar.

O problema do dogmatismo não é chegar a uma conclusão diferente da minha. O problema é considerar a própria conclusão tão evidente por si mesma que qualquer investigação adicional passe a representar ameaça.

Neste ponto, a Bíblia deixa de ser fonte e vira carimbo.

E carimbos são excelentes para cartórios.

Para conversas, cansativo.

O versículo na manga

Há um comportamento religioso que sempre me chama atenção: o versículo sacado no exato momento em que a conversa começa a ficar desconfortável.

É quase um mecanismo de defesa.

Você apresenta uma questão.

A pessoa procura mentalmente uma passagem que se aproxime do assunto.

Encontra.

Recita.

E espera que a discussão desapareça.

Talvez seja por isso que Marcos 7 sempre me pareça tão interessante.

Nessa passagem, Jesus confronta fariseus e escribas justamente por transformarem tradições religiosas em estruturas capazes de obscurecer o próprio sentido daquilo que pretendiam proteger.

“Em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos de homens.”

E mais adiante:

“Invalidando, assim, a palavra de Deus pela vossa tradição.”

O contexto envolve a chamada tradição dos anciãos, incluindo práticas de purificação e o episódio do Corbã. E é justamente no Corbã que a engenharia religiosa se conecta com a realidade.

A Lei de Moisés estabelecia um mandamento bastante simples: “Honra teu pai e tua mãe”. Na prática daquela sociedade, isso não significava apenas tratá-los com reverência, mas também assumir responsabilidades concretas por eles, inclusive quando envelhecessem e precisassem de amparo.

Só que a tradição encontrou uma maneira de contornar o inconveniente.

Uma pessoa podia declarar determinados bens como Corbã, isto é, como uma oferta dedicada a Deus. A partir daí, aquilo que deveria servir ao sustento dos próprios pais passava a ser tratado como indisponível para essa finalidade, porque, religiosamente, já havia sido consagrado.

A manobra é quase elegante de tão perversa: o sujeito não precisava dizer que não queria ajudar os pais. Bastava declarar que seus recursos agora pertenciam a uma finalidade “mais sagrada”.

O egoísmo continuava o mesmo.

Só ganhava vocabulário religioso.

Era uma forma de fazer a regra trabalhar contra o princípio que ela deveria preservar. O mandamento dizia para honrar os pais; a tradição produzia uma justificativa suficientemente piedosa para não fazê-lo.

Foi isso que Jesus atacou. Não a existência de regras, ritos ou tradições em si, mas o momento em que uma construção religiosa passa a servir de expediente para escapar justamente da obrigação moral que diz defender.

A estrutura permanecia intacta.

O propósito havia sido adulterado.

E talvez seja essa a parte mais incômoda da passagem: não é preciso abandonar a religião para contrariar aquilo que ela ensina. Às vezes basta aprender a manipulá-la com bastante solenidade.

A tradição continuava de pé. A ética havia sido deixada pelo caminho.É justamente aí que a passagem se torna desconfortavelmente atual. Uma pessoa pode conhecer centenas de versículos e continuar utilizando todos eles como barricadas contra qualquer pensamento que ameace a arquitetura que construiu.

Pode decorar a resposta e jamais enfrentar a pergunta.

Graças a Deus, a própria tradição cristã oferece munição suficiente contra esse comportamento.

O veneno costuma trazer antídoto na mesma embalagem.

Quando a interpretação vira propriedade privada

Um dos problemas mais comuns do dogmatismo é a apropriação da interpretação.

A pessoa não diz simplesmente:

“É assim que eu compreendo esse texto.”

Ela diz:

“É isso que o texto diz.”

Parece uma diferença pequena.

Mas não é.

Na primeira frase existe um intérprete.

Na segunda, ele desapareceu.

Sua leitura particular adquiriu tamanho grau de autoridade que passou a se confundir com a própria vontade divina. E discordar dela começa, arriscadamente, a parecer discordar de Deus.

Porque gente falando em nome de Deus nunca foi exatamente um recurso escasso na história humana.

O episódio da Transfiguração, por exemplo, em que Jesus aparece ao lado de Moisés e Elias, não resolve sozinho a discussão sobre mediunidade, e seria bem desonesto fingir que resolve.

Mas ele pelo menos demonstra que a própria cosmologia bíblica é mais sofisticada do que a caricatura segundo a qual qualquer manifestação envolvendo alguém que deixou a vida física precisa automaticamente ser reduzida à categoria demoníaca.

Há distinções teológicas ali. Há contexto, interpretação e séculos de debate.

Ou seja: existe trabalho intelectual a ser feito.

O problema é que muita gente sequer precisa fazê-lo. Alguém já selecionou os trechos, organizou a interpretação, determinou aquilo que deve causar medo e entregou a conclusão pronta.

Esse ponto me interessa particularmente, mas merece outra conversa.

Porque uma coisa é conhecer um terreiro e concluir que aquele caminho não serve para você.

Outra é nunca chegar perto dele porque alguém já decidiu, em seu nome, o que existe do outro lado da porta.

Quem são esses intermediários, e por que alguns deles parecem tão empenhados em manter essa porta fechada, fica para outro texto.

O que, admito, estraga um pouco a praticidade de andar com três versículos no bolso resolvendo toda a metafísica ocidental antes do almoço.

A experiência que encontrei na Umbanda

Por isso eu tenho me sentido tão confortável dentro da Umbanda.

Não afirmo que todo terreiro seja assim. Não conheço todos e desconfio de qualquer pessoa que transforme a própria experiência local numa lei universal.

Posso falar apenas da casa que frequento. Fraternidade Caboclo 7 Flechas. E nela encontrei uma pedagogia espiritual diferente. Muitas vezes, diante de uma entidade, fazemos uma pergunta esperando uma resposta.

E recebemos outra pergunta.

Pode ser meio frustrante às vezes.

Mas útil.

Você pergunta:

O que eu devo fazer?

E escuta alguma variação de:

O que você acha que deve fazer?

A entidade não necessariamente retira de você o peso da escolha. Muitas vezes devolve a responsabilidade inteira para o seu colo, talvez apenas rearranjando alguns elementos para que consiga enxergar melhor aquilo que já estava diante de si.

Não recebi um manual.

Recebi espaço.

Não encontrei alguém particularmente preocupado em vencer uma disputa filosófica comigo. Tampouco senti a urgência de ser convencido de que qualquer hesitação espiritual representava falta de fé.

Isso produziu um efeito importante. Pude continuar perguntando.

Dentro da minha experiência, essa é uma das maiores virtudes da Umbanda: ela não precisou eliminar minhas dúvidas para sustentar minha fé.

Ao contrário.

Algumas dúvidas passaram a fazer parte dela.

O medo da pergunta

Religiões, ideologias, partidos políticos e até empresas possuem o mesmo problema quando envelhecem mal: passam a confundir estabilidade com ausência de contestação.

A pergunta vira ameaça.

O dissenso vira deslealdade.

A dúvida vira fraqueza.

E, de repente, todo mundo está protegendo uma estrutura que já não sabe explicar direito por que existe.

Por isso que eu tenho tanta dificuldade com ambientes nos quais questionar uma interpretação seja imediatamente associado à falta de fé, ou pior, de conhecimento.

Se Deus criou uma realidade suficientemente complexa para que passemos uma vida tentando compreendê-la, parece intrigante imaginar que ele tenha ficado ofendido justamente com a parte em que fazemos perguntas.

Não consigo conceber uma fé tão frágil que precise ser protegida da curiosidade.

Muito menos uma divindade.

Não se trata de vencer os evangélicos

Seria fácil terminar este texto afirmando que a Umbanda estimula o pensamento enquanto o evangelicalismo o sufoca.

Também seria uma bobagem.

Conheço cristãos intelectualmente honestos, capazes de sustentar longas conversas sem transformar a Bíblia num martelo. Assim como a Umbanda, sendo uma tradição humana institucionalizada, evidentemente também pode produzir seus próprios dogmatismos, vaidades e pequenas autoridades locais.

O ser humano possui uma capacidade impressionante de transformar qualquer caminho espiritual em repartição pública.

Tenho resistência àquele modelo de fé que exige que a dúvida desapareça antes que você seja considerado suficientemente fiel.

Porque foi justamente perguntando que cheguei até aqui.

Perguntei sobre Deus.

Perguntei sobre espíritos.

Perguntei sobre mediunidade.

Perguntei sobre aquilo que vi.

Perguntei sobre aquilo que talvez tenha apenas imaginado.

E continuo perguntando.

Não porque minha fé seja pequena.

É porque eu não tenho nenhuma necessidade de fazê-la parecer maior do que é.

Hoje compreendo por que algumas conversas religiosas terminam tão rapidamente. Duas pessoas podem iniciar um debate imaginando que estão procurando uma resposta quando, na realidade, apenas uma delas ainda considera possível não possuí-la.

A outra já chegou.

Já entendeu.

Já sabe.

Já trouxe inclusive o versículo.

Tenho algum respeito por quem encontrou tamanha segurança espiritual. Só não sei exatamente o que conversar com ele depois disso.

Porque, quando todas as respostas chegam prontas, a única coisa que resta para o outro fazer é concordar.

E chamar concordância de diálogo seria exigir um milagre maior do que qualquer um que eu tenha visto dentro de um terreiro.

Douglas - Médium do Terreiro do Sete Flechas