Histórico vivo da Terreira

O Terceiro Consulente

O Terceiro Consulente

O Terceiro Consulente 

Sou um médium iniciante e, como provavelmente acontece com quase todo médium iniciante que ainda conserva algum juízo, tenho mais perguntas do que respostas.

A mediunidade tem esse inconveniente particular: quanto mais a gente aprende, menos confortável fica a ideia de que sabe alguma coisa. Então, meu esforço ao produzir este texto consiste puramente em prestar uma espécie de acompanhamento narrativo, sobretudo porque há pouca evidência documentada sobre aquilo que vivenciamos. Salvo de um diário escrito à mão, que carece de digitalização. 

E, já que não existe nenhuma exigência científica nisso, pensei: por que não começar a registrar tudo o que tenho aprendido, em vez de esperar a publicação de um livro?

No fundo, estou tentando colocar o tema “Umbanda” na mesma prateleira de assuntos como política, educação e saúde,  temas sobre os quais quase todo mundo possui, minimamente, alguma opinião formada e, de um jeito ou de outro, sente-se seguro para declarar uma posição.

Com a Umbanda, isso ainda está longe de acontecer da mesma forma. A boa notícia é que podemos participar da construção do espaço que ela ocupa no imaginário coletivo, oferecendo como matéria-prima toda a beleza, a complexidade e a dignidade que envolvem sua cultura, em vez de deixar que essa percepção seja formada pelo acúmulo de meias-verdades que historicamente ficaram espalhadas pelo caminho.

No começo, existe certa tentação de organizar o mundo espiritual em pequenas frações epistemológicas. Caboclo faz isso. Preto-Velho faz aquilo. Exu trabalha assim. Povo do Oriente, assado.

Depois de algum tempo, você percebe que a espiritualidade aparentemente não recebeu o memorando contendo nossas classificações e continua funcionando com absoluta indiferença às nossas pretensões didáticas.

Mas existe uma transformação que tenho observado não exatamente nas entidades, nem nos médiuns.

Nos consulentes.

Tenho a impressão de que a Umbanda atravessa o início de um processo bastante particular de democratização cultural. Ainda tímido, mas em andamento. Talvez incipiente demais para que possamos dar um nome definitivo ao fenômeno. Mas suficientemente visível para que alguém que frequenta terreiros há algumas décadas consiga perceber que alguma coisa mudou.

E mudou bastante.

Desde que a Umbanda começou a organizar sua identidade religiosa no início do século XX, muitos muros evidentemente caíram. Alguns ruíram por inteiro. Outros permanecem de pé, embora hoje sustentados por argumentos cada vez mais constrangidos.

Durante muito tempo, aquilo que acontecia dentro de um terreiro era interpretado do lado de fora através de uma extraordinária coleção de fantasias.

Sacrifícios.

Feitiçaria.

Demônios.

Despachos cinematográficos.

Possessões convenientemente semelhantes àquelas exibidas em filmes americanos. Perdi as contas das vezes que eu vi gente comentando isso. 

A criatividade humana, quando recebe medo suficiente e informação insuficiente, torna-se particularmente produtiva.

Lembro que, vinte ou talvez trinta anos atrás, quando frequentava terreiros apenas como consulente e ainda não possuía nenhum crivo observacional minimamente organizado, eu tinha a impressão de que as pessoas que chegavam até ali pertenciam predominantemente a dois grupos.

O primeiro era formado pelos simpatizantes.

Pessoas que não necessariamente desejavam abandonar sua religião de origem, mas encontravam na Umbanda uma espécie de território complementar. Havia alguma coisa ali que a igreja, o templo, o centro espírita ou a tradição familiar não conseguia preencher inteiramente.

Não havia ruptura. Havia curiosidade. O segundo grupo era bem mais classificável.

Eram os desesperados.

Gente que já havia tentado praticamente tudo. Médico, advogado, pastor, padre, psicólogo,  parente, amigo, promessa, novena.

E, depois que todas as portas aparentemente convencionais haviam produzido respostas insuficientes, alguém dizia:

“Conheço um terreiro.”

A Umbanda surgia, nesse caso, não exatamente como escolha espiritual, mas como último endereço conhecido antes da desistência.

Não digo isso com ironia dirigida a quem chegava assim. Muito pelo contrário.

Boa parte da história da caridade espiritual foi construída justamente recebendo pessoas quando quase ninguém mais queria recebê-las.

O que estou dizendo é outra coisa.

Esses dois grupos ajudaram profundamente a formar a Umbanda que conhecemos.Mas talvez um terceiro esteja começando a aparecer.

O terceiro consulente

Ainda existe um enorme analfabetismo religioso em relação à Umbanda.

Muita gente não conhece a diferença entre Umbanda, Candomblé, Espiritismo e qualquer manifestação religiosa que envolva incorporação, tambores ou um punhado de pessoas vestidas de branco.

Se isso ainda acontece hoje, imagine o caminho necessário para que determinadas virtudes da cultura umbandista começassem a escapar dos limites do terreiro.

Mas tenho observado algo novo.

De um lado, continua existindo aquele simpatizante que não abandonou a igreja, não rasgou a Bíblia, não rompeu com a família e tampouco sentiu necessidade de informar a família que agora ele é de outra religião.

Ele simplesmente entra, assiste, recebe atendimento, volta.

Do outro lado, porém, começam a aparecer pessoas que parecem enxergar a Umbanda não como uma religião substitutiva, mas como uma espécie de integração espiritual à própria existência.

Uso a palavra integração deliberadamente, porque talvez esteja aí uma das transformações mais interessantes. A Umbanda deixa de ocupar apenas o espaço da emergência, e começa a ocupar o espaço da escolha.

A pessoa não chega porque perdeu tudo, chega porque alguma coisa ali faz sentido.

E existe uma diferença gigantesca entre procurar um terreiro porque você não sabe mais para onde correr e entrar num terreiro porque decidiu que aquele lugar possui alguma coisa que deseja levar consigo.

Uma coisa é a urgência. Outra é pertencimento.

Não necessariamente o pertencimento institucional, mas um pertencimento moral. A pessoa continua católica, continua evangélica, continua dizendo que não possui religião alguma. E, mesmo assim, indexa à própria vida algumas coisas que encontrou dentro de um terreiro.

Caridade.

Escuta.

Ausência de julgamento.

Responsabilidade sobre os próprios atos.

Respeito à ancestralidade.

Talvez seja esse o verdadeiro processo de democratização que esteja acontecendo.

Não converter pessoas à Umbanda.

Mas fazer com que determinados valores umbandistas deixem de parecer estrangeiros para quem está fora dela.

“Eu só vim tomar um passe”

Talvez você esteja se perguntando de onde tirei essa conclusão. Como deve-se esperar, não foi nada acadêmico. Minha amostragem é consideravelmente menos sofisticada.

Eu observo pessoas.

“Eu só vim tomar um passe.”

“Só vim agradecer.”

“Estou precisando de um aconselhamento.”

Essas frases aparecem com uma frequência cada vez mais interessante. E talvez não pareçam extraordinárias para quem nunca acompanhou a transformação cultural em torno de um terreiro.

Mas algumas delas saem da boca de pessoas que, poucos anos atrás, provavelmente imaginavam que dentro daquele mesmo ambiente aconteciam coisas que fariam um roteirista de filme de terror pedir moderação.

Agora entram, sentam, conversam, recebem atendimento, agradecem, e vão embora. Não precisam compreender toda a cosmologia. Não precisam decorar pontos. Não precisam saber a diferença entre uma falange e outra. Nem precisam acreditar em tudo aquilo que nós acreditamos.

Há algo muito saudável nisso.

O respeito não exige conversão.

Talvez essa seja uma das conquistas culturais mais importantes que uma religião possa alcançar. Sem que ela tenha sido imposta.

Povo do Oriente

No primeiro domingo de cada mês realizamos uma sessão especial dedicada ao Povo do Oriente.

É um trabalho diferente.

A vibração costuma exigir do médium uma disposição ligeiramente distinta daquela encontrada, por exemplo, nas giras de Caboclo ou Preto-Velho.

Há menos exuberância física. Menos intensidade ostensiva.

E uma percepção que, ao menos na minha experiência ainda muito limitada, parece exigir maior refinamento.

É como se o médium tivesse que reduzir o barulho interno para perceber alguma coisa que não pretende gritar.

Mas isso merece outro texto.

Naquele domingo, antes dos atendimentos, nossa colega Aline conduziu o Evangelho.

Existe essa tradição em nossa casa. Todos os domingos, um dos médiuns lê um trecho de O Evangelho Segundo o Espiritismo e faz uma reflexão sobre aquilo que foi apresentado.

Formalmente, a dinâmica é bastante simples.

Lê-se o texto.

Interpreta-se.

Compartilha-se com os presentes.

Existe a interpretação que veio impressa no livro. Existe aquilo que o médium pensa sobre ela.

E existe uma terceira dimensão, muito mais difícil de mensurar, que aparece quando a corrente já está formada, a vibração começa a se estabelecer e as entidades estão próximas.

Não consigo descrever ou provar quanto pertence ao médium e quanto pertence à espiritualidade.

Talvez essa divisão sequer faça sentido. Mas lembra que, sou iniciante. 

O que sei é que, em determinados momentos, uma pessoa começa falando sobre um trecho escrito há muito tempo e termina dizendo exatamente alguma coisa que alguém naquela assistência precisava ouvir naquela manhã.

A autoria, nessas horas, torna-se um assunto secundário. Aline trouxe uma reflexão aparentemente elementar, talvez por isso tenha sido tão poderosa.

Falou sobre as moradas de Jesus.

E fez uma pergunta:

Quanto espaço existe, dentro da nossa casa, para que Jesus possa habitar?

A pergunta parece religiosa. Mas vai muito além disso.

Quando falamos em dar espaço para Jesus dentro de casa, a interpretação mais óbvia seria imaginar símbolos, orações, imagens, crucifixos ou qualquer manifestação externa da fé.

Só que a reflexão caminhou para outro lugar. Que espaço damos aos ensinamentos de Cristo na nossa rotina?

Quanto deles aparece quando discutimos com alguém?

Quanto aparece quando poderíamos humilhar e decidimos não fazê-lo?

Quanto aparece quando alguém nos decepciona?

Quanto aparece quando temos oportunidade de obter alguma vantagem injusta e ninguém jamais descobriria?

Porque é relativamente simples oferecer a Jesus uma parede. Mais difícil é oferecer comportamento. A parede recebe um quadro e não reclama. O ego costuma apresentar resistência.

Aline falou também sobre renúncia. Estamos acostumados a associar transformação espiritual à ideia de abandonar alguma coisa.

Renunciar ao pecado.

Renunciar aos vícios.

Renunciar ao mundo.

Renunciar aos prazeres.

Existe uma longa tradição religiosa baseada na hipótese de que, para alguma coisa sagrada entrar, alguma coisa humana precisa necessariamente sair.

Mas a reflexão daquele domingo do dia 06/09 propôs algo ligeiramente diferente. Talvez não seja sempre uma questão de renúncia. Talvez seja uma questão de acomodação. Você não precisa destruir sua casa para receber Jesus.

Precisa apenas abrir espaço.

Não importa se a casa possui cinquenta metros quadrados ou quinhentos, estamos falando de uma metragem que inclui valores emocionais.

A arquitetura invisível

Foi aí que comecei a pensar numa coisa que provavelmente não estava exatamente no texto lido por Aline.

Talvez grande parte daquilo que nos maltrata dependa do espaço que oferecemos para que determinadas coisas permaneçam dentro de nós.

Ressentimento ocupa espaço.

Vaidade ocupa espaço.

Medo ocupa espaço.

Inveja ocupa um espaço enorme, embora costume fingir que mora num quartinho dos fundos.

Orgulho, então, gosta de suíte.

Talvez a pergunta não seja apenas quanto espaço damos a Jesus.

Mas o que está ocupando o espaço que poderia pertencer àquilo que ele ensinou.

E isso muda consideravelmente a questão.

Porque, nesse caso, espiritualidade deixa de ser decoração religiosa e passa a ser arquitetura interior.

Não importa quantas vezes você diga o nome de Cristo.

Importa quanto daquilo que ele ensinou consegue ser sustentado quando alguém contraria você.

A prova da fé talvez não aconteça durante uma oração.

Talvez aconteça cinco minutos depois.

O que o consulente talvez tenha descoberto

Foi pensando nisso que a reflexão de Aline começou a se conectar com aquilo que venho observando nos consulentes.

Talvez a democratização da Umbanda não esteja acontecendo porque mais pessoas passaram a acreditar em incorporação.

Nem porque finalmente compreenderam os fundamentos das entidades. Muito menos porque decidiram abandonar suas religiões anteriores. Talvez esteja acontecendo algo mais simples. As pessoas descobriram que podem entrar.

Sem renunciar à própria história.

Sem preencher um formulário ideológico.

Sem jurar fidelidade.

Sem pagar ingresso.

Você pode continuar frequentando sua igreja e tomar um passe. Pode continuar rezando o terço e conversar com um Preto-Velho. Pode gostar de filosofia oriental e ouvir um Caboclo. Pode inclusive não saber exatamente no que acredita. A entidade provavelmente não pedirá sua declaração doutrinária antes de ajudar. Esse talvez seja um dos aspectos mais sofisticados da Umbanda justamente porque parece rudimentar.

Ela recebe primeiro.

Discute metafísica depois.

Se discutir.

A casa

Volto então à pergunta daquela manhã. Quanto espaço damos para Jesus dentro da nossa casa? Talvez eu esteja interpretando longe demais aquilo que Aline quis dizer.

É possível.

Médiuns também cometem excessos interpretativos. Aliás, se existe uma atividade humana suficientemente eficiente em produzir convicções a partir de evidências incompletas, essa atividade é a religião. Por isso prefiro permanecer no terreno da experiência. E aquilo que tenho visto é bastante concreto. Pessoas que antes evitariam entrar num terreiro hoje aparecem sem constrangimento. 

Algumas chegam curiosas. 

Outras chegam cansadas.

Algumas ainda chegam desesperadas.

Mas existe agora quem simplesmente chega porque gosta de estar ali.

Porque sente paz.

Porque reconhece valor.

Porque encontrou uma forma de espiritualidade que não exige que sua biografia anterior seja destruída para que uma nova possa começar. Talvez esse seja o espaço do qual falávamos. Não necessariamente um cômodo.

Mas uma disponibilidade.

A disposição para permitir que alguma coisa boa entre sem exigir que todo o resto seja demolido.

Talvez Jesus nunca tenha precisado que abandonássemos nossa casa.

Talvez tenha pedido apenas um lugar nela.

E, pensando bem, existe algo profundamente umbandista nisso.

Não perguntar de onde você veio antes de oferecer ajuda.

Não perguntar quanto você possui.

Não exigir que você abandone o que ama.

Não transformar acolhimento em contrato.

Você chega.

Senta.

Recebe.

Às vezes volta.

Às vezes nunca mais.

E tudo bem.

Porque talvez a grande mudança que eu esteja assistindo seja precisamente essa.

Durante muito tempo, muita gente procurou a Umbanda quando já não havia mais para onde ir.

Agora algumas pessoas começam a procurá-la porque descobriram que querem estar ali.

Há uma diferença colossal entre essas duas coisas.

Uma nasce do desespero.

A outra nasce da identificação.

E talvez um dia descubramos que a maior vitória cultural da Umbanda nunca tenha sido converter ninguém.

Foi tornar-se compreensível sem exigir que o outro abandonasse aquilo que já era.

No fim das contas, aquele consulente que entra no terreiro, toma seu passe, agradece e retorna para casa talvez tenha aprendido uma coisa bastante simples.

Ele não precisa procurar uma nova morada para encontrar Jesus.

Precisa apenas abrir espaço na que já possui.

Douglas, Médium Trabalhador de nossa casa.