Histórico vivo da Terreira

Jesus breve voltará

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Jesus breve voltará

Segue mais um artigo de reflexão sobre a vida mediúnica produzido por um de nossos trabalhadores da casa! Ótima Leitura aos amigos!


Quem cresceu na Região Metropolitana de Porto Alegre entre os anos 1980 e 2000 provavelmente vai lembrar delas.

Pequenas placas de metal, quase sempre presas em postes, muros ou lugares suficientemente altos para dificultar a ação dos iconoclastas de plantão, carregavam uma frase curta:

Jesus breve voltará.

Não havia telefone.

Não havia endereço de igreja.

Não havia pedido de dízimo, convite para culto ou qualquer outra ferramenta indispensável à salvação contemporânea.

Só a frase.

Durante muitos anos, aquilo fez parte da paisagem urbana de maneira tão recorrente que acabou adquirindo uma característica curiosa: ninguém sabia exatamente quem colocava as placas, mas todo mundo parecia conhecê-las.

Havia suspeitas, evidentemente.

A proximidade da frase com o vocabulário pentecostal fez muita gente associar a ação à Assembleia de Deus. Ao que se sabe, porém, nunca surgiu uma comprovação institucional suficientemente sólida. O responsável permaneceu durante muito tempo naquela categoria fascinante de personagens que conseguem realizar uma campanha de comunicação inteira sem precisar aparecer numa fotografia apontando para ela.

O charme todo estava lá.

O sujeito não precisava explicar muito.

Jesus voltaria.

O resto ficava por nossa conta.

A frase, naturalmente, não nasceu nas placas. A ideia do retorno de Cristo atravessa o Novo Testamento de diferentes maneiras. O que aquelas pequenas peças de metal fizeram foi condensar uma construção teológica enorme em três palavras simples o bastante para atravessar décadas.

E talvez essa seja uma das razões pelas quais eu ainda me lembro delas.

O problema nunca foi exatamente acreditar que Jesus voltaria.

O problema é descobrir o que fazer enquanto ele não volta.

Um domingo comum

Na terreira do Caboclo Sete Flechas, seguimos uma rotina relativamente organizada nos trabalhos. Há domingos destinados aos caboclos. Outros, aos pretos-velhos e povo do Oriente.

E naquele domingo estávamos trabalhando com os pretos-velhos.

A sessão transcorria normalmente até que, em determinado momento, aconteceu algo fora da rotina.

Manifestou-se o Caboclo Sete Flechas.

Não veio para trabalhar, atender consulente ou muito menos ficar até o fim da sessão.

Veio deixar um recado.

Sua postura também chamou minha atenção porque conheço razoavelmente sua maneira de agir. Existe nele certa leveza, inclusive um jeito brincalhão de conduzir algumas situações.

Naquele momento, não havia nada disso.

A comunicação foi curta e séria.

Disse que chegaria um tempo, não muito distante, em que Jesus separaria o joio do trigo.

E explicou o que pretendia dizer com aquilo.

Cada um precisaria decidir de que lado estaria.

Do lado daqueles que seguem Cristo ou daqueles que não seguem.

Falou ainda sobre permanecer firme naquilo em que acreditamos e disse que, para quem ainda não havia escolhido um caminho, talvez estivesse chegando a hora de escolher.

Depois foi embora.

Simples assim.

O astral costuma ser muito menos interessado em rodeios do que nós.

Mas alguma coisa naquela fala me acompanhou.

Para quem era o recado?

Existe uma característica interessante dentro da Umbanda que só comecei a perceber depois de algum tempo de trabalho.

Nem tudo que acontece numa sessão precisa acontecer para todo mundo.

Às vezes, uma gira inteira parece produzir circunstâncias destinadas especialmente a uma pessoa.

Pode ser um consulente, um médium ou alguém da assistência.

Os demais evidentemente participam e recebem os efeitos daquele trabalho, mas há momentos em que conseguimos perceber que existe um endereço principal.

Por conhecer a maneira como o Caboclo normalmente se manifesta, minha primeira interpretação foi bastante simples.

Aquela mensagem provavelmente era destinada a alguém.

Talvez uma pessoa estivesse se afastando daquilo em que acreditava.

Talvez estivesse vivendo algum conflito ou precisasse ouvir exatamente aquilo.

Resolvido.

Seria muito confortável se meu pensamento tivesse parado ali.

Durante os dias seguintes, a frase começou a me incomodar por outra razão.

Eu não tinha medo da possibilidade de Jesus voltar.

Essa parte não me causava problema algum.

Minha inquietação estava em outra pergunta:

e se aquilo não estivesse falando apenas sobre o fim de alguma coisa?

As placas ganharam assinatura

Durante décadas, aquelas placas anunciavam:

Jesus breve voltará.

Sem assinatura.

Sem prazo.

Sem explicação.

Agora, muitos anos depois, dentro de um terreiro de Umbanda, ouvi praticamente a mesma advertência vindo de uma entidade espiritual.

Existe uma ironia boa nisso para que eu não tenha coragem de desperdiçá-la.

Durante boa parte da história, setores do cristianismo gastaram considerável energia tentando decidir se pessoas como nós estavam próximas de Cristo.

De repente, dentro de uma terreira, um Caboclo aparece apenas para lembrar que talvez fosse uma boa ideia continuarmos próximos dele.

A espiritualidade possui um estranho senso de humor.

Mas havia uma diferença fundamental entre aquela mensagem e as placas da minha infância.

Agora havia assinatura.

E isso mudou minha relação com a frase.

Não porque eu tenha transformado a manifestação numa profecia particular.

Muito menos porque esteja esperando algum acontecimento apocalíptico na próxima terça-feira depois do almoço.

A própria tradição cristã é bem clara ao recomendar cautela com quem se especializa em calendários divinos.

Suponhamos que algum movimento importante realmente esteja em curso.

O que eu faço com essa informação?

O problema nunca foi o retorno

Talvez o erro esteja em imaginar que precisamos descobrir o que acontecerá.

Não sei.

Tenho aprendido, inclusive, que uma das maiores vantagens da maturidade espiritual é adquirir alguma tranquilidade para dizer essas três palavras sem sentir que nossa fé diminuiu.

Pode haver apenas uma transformação acontecendo dentro de nós mesmos e sendo interpretada com as ferramentas simbólicas que possuímos.

Mas existe uma pergunta muito mais útil do que tentar adivinhar a arquitetura bíblica do futuro:

quem eu pretendo ser quando ele chegar?

Porque, se Cristo voltasse amanhã, seria razoavelmente tarde para começar a construir caráter hoje à noite.

E se não voltar amanhã, melhor ainda.

Ganhei mais tempo.

Tenho pensado que talvez seja esse o único preparo minimamente honesto.

Ser alguém melhor.

Não melhor segundo o tribunal informal das pessoas religiosas, porque esse tribunal costuma condenar com uma velocidade que faria inveja ao sistema judiciário.

Melhor segundo aquilo que consigo compreender dos ensinamentos de Cristo.

Mais caridoso.

Menos vaidoso.

Menos interessado em vencer discussões.

Mais capaz de reconhecer quando errei.

Mais atento ao sofrimento alheio.

Mais responsável pelo efeito que produzo nas pessoas.

Não espero conseguir isso rapidamente.

Talvez leve o resto desta vida.

Talvez leve outras.

Não vejo problema.

A eternidade, afinal, tem a vantagem administrativa de não trabalhar com metas trimestrais.

O discernimento

Mas existe ainda uma parte daquela mensagem que considero mais delicada.

Escolher um lado.

Tenho certa resistência a frases assim porque a história humana está cheia de gente absolutamente convencida de estar do lado certo.

Quase sempre é nesse momento que começam os problemas.

Todo fanático possui uma explicação moral impecável para a própria brutalidade.

Todo extremista acredita estar defendendo alguma virtude.

E algumas das maiores barbaridades da humanidade foram praticadas por pessoas profundamente convencidas de que Deus concordava com elas.

Por isso, se algum grande movimento realmente acontecer, não quero apenas ter fé.

Quero ter discernimento.

Fé sem discernimento pode produzir obediência.

E obediência não é necessariamente virtude.

Quero conseguir olhar para aquilo que estiver acontecendo e perguntar:

isso produz caridade?

Isso produz dignidade?

Isso produz consciência?

Isso aproxima ou apenas divide?

Isso exige transformação de mim ou apenas me oferece a deliciosa oportunidade de condenar os outros?

Porque essa última costuma ser a religião mais fácil de todas.

Nenhuma reforma íntima é necessária quando o problema está sempre no vizinho.

E então volto à fala do Caboclo que permaneceu comigo.

Não porque tenha me dado respostas.

Mas porque aumentou a responsabilidade das perguntas.

Enquanto ele não volta

Hoje aceito com bastante naturalidade a ideia do retorno de Cristo.

Não sei como acontecerá.

Muito menos quando.

E, pela primeira vez, percebo que talvez eu nem precise saber.

O que preciso construir é alguma confiança na pessoa que estarei me tornando até lá.

Quero acreditar que, quando precisar escolher, não escolherei por medo.

Nem pelo entusiasmo coletivo.

Quero confiar no meu discernimento.

Naquilo que aprendi.

Nas experiências que vivi, nas entidades que conheci, nos erros que cometi.

Quero crer na capacidade de reconhecer Cristo muito além do lugar onde me ensinaram que ele deveria estar.

Ao menos para mim, esse é o verdadeiro sentido de permanecer vigilante.

Sou contra guerras.

Sempre fui.

Mas, se um dia for inevitável escolher um lado numa batalha moral entre aquilo que aproxima o homem de Cristo e aquilo que o afasta dele, espero ter adquirido consciência suficiente para reconhecer a diferença.

Porque, embora eu continue sendo contra guerras, admito uma pequena contradição.

Quero ficar do lado de quem atira bem.

De preferência, sem precisar atirar em ninguém.

Douglas.
Médium da Corrente do Sete Flechas