Essa é uma pergunta antiga e recorrente em nossa história. Na literatura espírita, veremos que uma alma experimenta, através das incontáveis encarnações, tanto o lado masculino como o feminino da vida. Quando o médium adentra o terreiro, passa pela tronqueira e veste o branco, deve se despir não só da roupa civil, mas, principalmente, de muitas outras coisas que devem ser mantidas fora do terreiro, como seu partido político, preferência sexual, time de futebol, gênero e classe social. Na Umbanda, pedimos às mulheres que não utilizem maquiagens, adereços, colares, joias, pulseiras, correntinhas de ouro e qualquer outro objeto que ressalte sua posição ou classe. Isso tem por objetivo minimizar nossas diferenças naturais a fim de facilitar o equilíbrio da corrente, favorecendo que todos vibrem numa faixa de sintonia o mais próxima possível uns dos outros. Nossas opiniões partidárias, times de futebol e até mesmo crenças e fé pessoais devem ficar do lado de fora da terreira. Quando somos atendidos pelas entidades da Umbanda, elas não nos questionam se somos evangélicos, católicos, judeus ou ateus; se preferimos o Lula ou o Bolsonaro; se somos a favor da China ou dos Estados Unidos; se somos feministas, machistas, héteros ou homossexuais. Quando chegamos à frente de um Preto-Velho numa gira de Umbanda, ele simplesmente abre um sorriso carinhoso e nos questiona naturalmente: “Como cê tá, mizifio?”.
Estamos vivendo um momento de ódio nacional e planetário, no qual somos constantemente incentivados a odiar aquele que não está do mesmo lado que nós. Como podemos reduzir essas tensões? Como podemos suportar as provas colocadas dentro de casa, no trabalho ou na terreira referentes a esses temas tão controversos? O espiritismo revela que devemos nos evangelizar e nos instruir quanto aos valores morais e espirituais revelados por Jesus. A Umbanda nos proporciona o mesmo aprendizado através da prática e da vivência dentro do terreiro, fazendo-nos muitas vezes conviver com o inimigo lado a lado, esquecendo-nos momentaneamente das nossas diferenças e do nosso inesgotável orgulho. Quantas vezes, mediunizados por entidades superiores, somos colocados frente a frente com desafetos de hoje ou de ontem, quando temos a maravilhosa oportunidade de ver palavras sublimes saírem de nossos próprios lábios em favor daquele de quem sequer gostaríamos de estar próximos. A Umbanda executa a magia do amor bem na frente de nossos olhos, valendo-se de ritos, preceitos e elementos magísticos poderosos, usando-nos como instrumentos vivos na transformação de tudo e de todos. Não se esqueça de que Umbanda significa amor em movimento; então, ao adentrar o terreiro, seja de branco ou à paisana, saiba que estará como um pequeno barco a ser guiado por ondas enormes de amor e harmonização. Ao entrar na casa, esqueça-se um pouco de si mesmo, de seus preconceitos e vaidades. Permita-se ser conduzido pela Luz Divina que está ali a brilhar e guiar a todos que se aproximam dela. O amor é a única constante no Universo; todo o resto passará e se transformará através dele.
Que Pai Oxalá seja nosso farol neste momento tempestuoso e que ele nos faça ver, realmente, que somos todos filhos do mesmo Pai.
Saravá!
Giuliano