Terminei minha participação na leitura do Evangelho satisfeito com o que havia dito. Tinha falado sobre a sinceridade da oração, sobre a diferença entre estar presente numa prece e simplesmente repetir as palavras. Achei que a reflexão havia sido pertinente para este domingo e fiquei com a impressão de ter conseguido transmitir o que pensava.
Mais tarde, durante os trabalhos, algumas coisas aconteceram que me fizeram voltar ao assunto.
Na nossa casa, independentemente da linha que esteja trabalhando, todo domingo um dos médiuns escolhe um trecho do Evangelho para ler e comentar. A escolha é pessoal. Cada um procura compartilhar uma passagem que, por algum motivo, considera importante naquele momento. Gosto dessa liberdade. Às vezes, uma leitura que já conhecemos ganha outro sentido quando pensamos nela a partir de alguma experiência recente.
Na rotina da casa, alternamos sessões de caboclos, pretos-velhos e do povo cor-de-rosa. O primeiro domingo de cada mês é dedicado ao povo do Oriente.
Naquele dia, Giuliano, dirigente da casa e meu grande amigo, havia lembrado uma característica desses trabalhos. São encontros voltados à cura espiritual, nos quais a oração, o recolhimento, a reflexão e a meditação têm bastante importância. A concentração acaba sendo fundamental, sobretudo porque nem sempre percebemos o que acontece da mesma maneira que em outros trabalhos.
Foi pensando nisso que procurei desenvolver uma ideia relativamente simples: uma oração pode ser lida, decorada, improvisada ou até sair com dificuldade. Para mim, o importante é a sinceridade de quem está rezando. A pessoa precisa estar minimamente envolvida com aquilo que diz, mesmo quando não encontra as palavras que gostaria.
Kardec, no capítulo XXVII de O Evangelho segundo o Espiritismo, relaciona a prece ao pensamento e à sinceridade, não à repetição automática de palavras.
Essa observação sempre me interessou. Uma oração escrita pode ajudar alguém a expressar aquilo que ainda não consegue organizar sozinho. Repetir uma prece conhecida também pode ser uma maneira de se concentrar e encontrar algum equilíbrio. O problema aparece quando a pessoa entrega toda a responsabilidade à oração decorada e passa por ela sem prestar muita atenção.
Também penso que ninguém precisa estar bem consigo mesmo para fazer uma prece sincera. Podemos rezar cansados, preocupados, com dúvidas ou até atravessando um período em que acreditar parece mais difícil. Seria estranho exigir que alguém estivesse espiritualmente tranquilo justamente num momento em que procura ajuda.
Enfim, foi mais ou menos isso que procurei transmitir.
Terminei a leitura contente com a minha contribuição. Talvez até um pouco orgulhoso, o que não deixa de ser curioso considerando o assunto que eu havia escolhido. Mas, naquele momento, achei que tinha feito uma boa reflexão.
Cinco cadeiras e outras possibilidades
Estrela Guia costuma abrir os trabalhos nesses domingos. Naquela ocasião, porém, a responsabilidade foi compartilhada com o caboclo Sete Flechas, que trouxe uma organização diferente daquela à qual estávamos habituados.
Cinco cadeiras foram colocadas lado a lado para que os consulentes se sentassem e recebessem os passes. Quando vi a disposição, lembrei dos trabalhos em casas kardecistas que já havia frequentado. Foi uma associação imediata, embora eu soubesse que estávamos diante de outra experiência.
Esperávamos, em grande medida, o trabalho do povo do Oriente, com as manifestações e as consultas que costumam acompanhar esses encontros. Mas a sessão aconteceu de outra maneira.
Ao longo dos trabalhos, diferentes entidades se manifestaram na corrente, algumas simultaneamente. Nem sempre conseguíamos identificar com clareza quem estava trabalhando através de cada médium. Também não havia aquela conversa individual que normalmente acompanha boa parte dos atendimentos.
No meu caso, reconheci a presença de Ogum Beira-Mar, que compreendo como meu pai de cabeça. Isso me trouxe alguma familiaridade durante o trabalho. Em outros momentos, tive mais dificuldade para perceber exatamente o que estava acontecendo.
Entre nós há médiuns que estão no início do desenvolvimento e ainda procuram compreender suas primeiras experiências de incorporação. Imagino que uma mudança como aquela possa trazer dúvidas. O próprio processo de reconhecer uma manifestação já exige aprendizado, e naquele domingo algumas das referências habituais estavam diferentes.
Alguns médiuns precisaram de mais auxílio do Sete Flechas para conduzir o atendimento. Isso me pareceu natural, considerando a experiência de cada um e a maneira como os trabalhos estavam sendo organizados. Havia acompanhamento e orientação durante toda a sessão.
Pela maneira como me senti e pelo que consegui acompanhar, tive a percepção de que o trabalho foi bem realizado. Os passes e a energização aconteceram, ainda que eu não soubesse explicar exatamente tudo o que se passava ali.
Nos domingos do Oriente, aquilo que percebemos como uma vibração elevada costuma se apresentar de maneira bastante sutil. Pelo menos é assim que tenho sentido essas experiências. Em algumas incorporações, os sinais são mais evidentes; em outras, a percepção exige uma concentração diferente. Para quem está acostumado a manifestações mais marcadas, pode ser difícil reconhecer o que acontece quando esses sinais são discretos.
Tenho conseguido lidar razoavelmente bem com essas diferenças. Ainda há muita coisa que não compreendo, mas isso não tem me incomodado tanto quanto poderia. Procuro acompanhar o trabalho, observar o que acontece e conversar sobre minhas dúvidas quando considero necessário.
Às vezes, percebo que fico tentando entender demais uma experiência enquanto ela ainda está acontecendo. Dependendo da situação, isso acaba prejudicando minha concentração. Tenho procurado encontrar um equilíbrio, embora nem sempre consiga.
Também acho importante manter algum critério. Existem situações em que é necessário perguntar, buscar orientação e até desconfiar da própria interpretação. O desenvolvimento mediúnico envolve aprendizado, e boa parte dele acontece justamente quando percebemos que nossas primeiras impressões podem estar equivocadas.
Naquele domingo, saí com algumas perguntas, mas sem a sensação de que precisaria encontrar imediatamente uma resposta para cada uma.
Quem só quer um passe
Quando encerramos os trabalhos e começamos a conversar sobre aquela manhã, pensei numa possibilidade que até então não tinha considerado muito: talvez uma organização como aquela pudesse atender melhor algumas pessoas que não procuravam uma consulta.
Estamos acostumados a associar o atendimento à conversa. O consulente se senta, apresenta uma dificuldade, recebe orientação e toma um passe. É uma experiência importante. Muitas pessoas encontram nesses momentos uma oportunidade de falar sobre situações que não conseguem compartilhar em outros ambientes.
Mas comecei a pensar naquelas que chegam à casa querendo apenas receber um passe.
Pode ser alguém que esteja conhecendo a Umbanda pela primeira vez. Pode ser uma pessoa atravessando um período difícil e sem disposição para conversar. Há também quem simplesmente prefira ficar em silêncio, receber o atendimento e ir embora.
Talvez nós nem sempre consideremos suficientemente essas possibilidades.
Não me refiro a alguma exigência feita pelas entidades. Penso mais na expectativa que acabamos criando, como médiuns, em torno do atendimento. Estamos tão acostumados com a conversa e a orientação que podemos passar a considerá-las partes indispensáveis de uma experiência completa.
E, para algumas pessoas, falar sobre o que estão vivendo exige um esforço enorme.
Já passei por situações em que uma pergunta bem-intencionada me encontrou sem muita disposição para responder. Imagino que isso também aconteça com quem chega procurando auxílio espiritual. Há assuntos que a pessoa ainda não elaborou, dificuldades que prefere manter reservadas e momentos em que conversar simplesmente não ajuda tanto.
A disposição daquelas cinco cadeiras me fez pensar nisso. Uma pessoa poderia chegar, sentar, receber seu passe e seguir seu caminho sem precisar explicar nada.
Não sei se essa era a intenção do Sete Flechas ao organizar o trabalho daquela maneira. Foi uma possibilidade que enxerguei enquanto pensava sobre o que tínhamos vivido.
E achei interessante porque ampliava minha compreensão sobre o acolhimento. Em geral, damos bastante valor à escuta, e com razão. Mas ela precisa estar disponível sem que a pessoa se sinta obrigada a utilizá-la.
Lembrei então da reflexão que havia feito na abertura dos trabalhos. Eu tinha falado sobre a sinceridade da oração e sobre como ela poderia existir independentemente das palavras escolhidas. Agora, diante daquela experiência, comecei a pensar que o atendimento espiritual também poderia acontecer de maneiras diferentes daquelas às quais eu estava acostumado.
A relação entre as duas coisas só me ocorreu depois, quando já estávamos conversando sobre a sessão.
Uma casa não esgota a Umbanda
Foi nessa conversa que também falei sobre a amplitude da Umbanda. Gosto muito da liberdade que encontro nessa religião e da possibilidade de conhecer práticas diferentes sem precisar decidir imediatamente se pertencem ou não a uma determinada tradição.
Naquele domingo, por exemplo, a organização dos passes me lembrou experiências kardecistas, mas o trabalho estava acontecendo dentro da nossa casa, conduzido pelas entidades que ali se manifestavam. A semelhança não me pareceu um problema. Pelo contrário, despertou minha curiosidade.
O historiador Artur Cesar Isaia destaca a diversidade ritual e doutrinária umbandista e a inexistência de uma autoridade central reconhecida por toda a religião. https://www.scielo.br/j/topoi/a/vBgvcdr98rs54hRbv3qv87C/?lang=pt
Essa diversidade aparece de muitas maneiras. Há diferenças na organização dos trabalhos, na maneira como as entidades se apresentam, nas orientações oferecidas aos médiuns e nas próprias interpretações sobre determinados fundamentos. Mesmo dentro de uma casa, podemos encontrar experiências que fogem um pouco da rotina que conhecemos.
Penso que isso exige disposição para aprender. É muito fácil tomar aquilo que vivemos com frequência como referência para avaliar todas as outras experiências. Eu mesmo faço isso, às vezes sem perceber.
O domingo me deixou pensando justamente nessa tendência.
Havia começado a manhã falando sobre a importância de uma oração sincera. Pouco depois, participei de um trabalho diferente do que esperava e precisei reconhecer que não compreendia tudo o que estava acontecendo. Ainda assim, consegui acompanhar a sessão com tranquilidade e senti que havia participado de uma experiência importante.
Continuo com algumas dúvidas sobre o que aconteceu, especialmente sobre a manifestação das entidades e a organização dos atendimentos. Quero conversar mais a respeito e observar como serão os próximos trabalhos do Oriente.
Por enquanto, fiquei com a impressão de que aquela manhã me ensinou um pouco mais sobre a sinceridade que eu havia defendido na leitura do Evangelho. Inclusive a sinceridade de admitir, para mim mesmo, quando ainda tenho muito a aprender.
Médium Douglas.